Um novo artigo de Inês Ascenso, estudante de doutoramento do CEI-Iscte, e Marcelo Moriconi, também investigador do CEI-Iscte, em coautoria com Luís de Sousa, analisa os mecanismos sociais e psicológicos que ajudam a explicar por que razão as pessoas podem envolver-se em práticas corruptas apesar de, à partida, as condenarem.

Publicado na International Journal of Public Administration, o artigo “Do as I Say, Not as I Do’: Understanding Moral Rationalisations and Disengagements Behind ‘Parochial’ Corrupt Actions” centra-se na chamada corrupção “paroquial” em Portugal, práticas que recorrem, por exemplo, a relações pessoais para contornar procedimentos ou ultrapassar dificuldades no acesso a serviços e recursos.

A investigação parte de uma constatação: embora a corrupção seja amplamente rejeitada, determinadas práticas podem ser toleradas ou mesmo adotadas no dia a dia. Para compreender esta aparente contradição, os autores analisam a relação entre normas injuntivas (aquilo que as pessoas consideram que deve ser feito) e normas descritivas (aquilo que percecionam que os outros fazem).

Com base em dados de inquérito e focus group, os resultados mostram que, embora a corrupção “paroquial” seja geralmente considerada indesejável, muitas pessoas sentem que têm de recorrer a estas práticas por acreditarem que “toda a gente o faz” e por considerarem que esta é uma forma eficaz de ultrapassar limitações ou falhas do sistema. O estudo mostra também que, dependendo do contexto, determinadas ações podem nem sequer ser percecionadas como corrupção. Para lidar com o conflito entre os seus valores e os seus comportamentos, os indivíduos recorrem a diferentes formas de racionalização e descomprometimento moral, que lhes permitem justificar as suas ações e reduzir sentimentos de culpa.

Os resultados ajudam, assim, a compreender como determinadas práticas podem ser simultaneamente condenadas e toleradas e como as normas sociais e os processos de justificação contribuem para a sua persistência.

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