A energia que falta

Por Cátia Miriam Costa, Investigadora do Centro de Estudos Internacionais, ISCTE-IUL

A energia e o acesso a esta tornaram-se preocupações quotidianas. Claro que o facto de ligar o interruptor e ter luz, chegar ao posto de abastecimento e ter combustível disponível tornou a nossa vida mais fácil.
Contudo, a questão energética traz consigo toda uma dimensão que se liga não só à questão económica como à própria sustentabilidade ecológica.São inquietantes as alterações climáticas verificadas e o impacto que determinados elementos da natureza estão a sofrer por ação humana. Lembrem-se estes últimos temporais que assolaram as costas de Portugal, Espanha e Grã-Bretanha, com uma frequência até agora desconhecida e com um impacto assinalável.

O governo português, no Programa Nacional de Reformas, Portugal 2020, aprovado em Conselho de Ministros, em março de 2011, aponta para o desenvolvimento inteligente, verde e inclusivo como base do crescimento sustentável, concordando com a estratégia Europa 2020. Em fevereiro passado, essa preocupação tornou-se evidente com a nomeação da Comissão para a Reforma e a Fiscalidade Verde, com o objetivo de redefinir as bases de tributação ambiental, promovendo a sustentabilidade e a competitividade económica.

O relatório “Desenvolvimento Económico da Energia” na Europa da Comissão Europeia, publicado já este ano, assume que a União Europeia é dependente em termos de importação energética. Mas os dados revelados colocam outra perspetiva sobre a questão. Vejamos. Portugal, a par da Dinamarca e da Espanha, produz 15% a 20% da sua energia a partir das fontes renováveis, aparecendo destacado no relatório. Em 2010, a União Europeia produzia 70% da eletricidade total gerada a partir do sol e 44% da produção global a partir do vento.

Mas as iniciativas vão para além das instituições oficiais. A European Cimate Foundation propõe, desde 2010, um roadmap para uma Europa de baixo carbono. Um reconhecido think tank, sediado em Londres, o Centre for European Reform, descrito pelo The Economist como atlantista e eurófilo e pelo Financial Times como  tendo uma progressiva influência na formatação da política oficial, lançou a discussão da energia como fator central para a mudança climática no parlamento britânico.

Voltando ao relatório da Comissão Europeia, percebemos que não é só a União Europeia a querer optar pelo abaixamento do carbono presente nas suas sociedades e economias. Tal como as mudanças climáticas são globais, também o desenvolvimento de energias renováveis deve ser visto da mesma perspetiva. Assim, é de assinalar que entre 2000 e 2010, a geração de eletricidade a partir das energias renováveis aumentou 45%, sendo que os países com maior crescimento nesta opção foram, por ordem decrescente, a China, a União Europeia e o Brasil.

A energia que falta encontra resposta na complementaridade entre fontes energéticas e na abertura de possibilidades de negócios internacionais que visem estratégias de coordenação entre meios esgotáveis e renováveis. É de notar que países como a China e o Brasil tenham tomado esta consciência. Outros, como o Peru e a Argentina, têm publicações periódicas dedicadas exclusivamente a energia e negócios. É, ainda, de lembrar que no conjunto de países da CPLP existem muitas possibilidades de parcerias entre países que recorrem a fontes esgotáveis e os que já possuem tecnologia renovável. Significa que o setor da energia está a tornar-se interessante a diferentes níveis, incluindo o de novos mercados e como fator-chave na diplomacia.

 

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