Resumo

O deslocamento populacional — forçado, induzido ou voluntário — encontra-se arraigado nos territórios que hoje compõem Angola e respectivas franjas. A escravatura, o trabalho forçado, a violência e os pesados impostos, o processo de ocupação territorial, as políticas coloniais e outras mais recentes, mas sobretudo os continuados conflitos inter-relacionados, estiveram na base de profundas transformações demográficas. Ao longo do tempo, a incerteza estrutural contribuiu para que o movimento — enquanto constrangimento e estratégia — se consolidasse como condição central na vida das populações locais. Através de métodos etnográficos adaptados ao contexto do terreno, procurei compreender como se articula o movimento de “refugiados” e “repatriados angolanos”. Nesse sentido, e partindo do campo de refugiados de Meheba, Zâmbia, acompanhei directa e indirectamente os respectivos percursos entre a Zâmbia e Angola. O resultado foi a elaboração de um regime de pensamento e de acção, organizado através das unidades socioespaciais envolvidas — a saber, “o campo” (de refugiados), “o mato”, “a cidade”, “a estrada” e “a fronteira”. Tais unidades socioespaciais, cuja substância é produto — e produtora — de eventos, ideias e ideais de (i)mobilidade, constituem o que eu chamo de “horizontes operativos”. Assim, trata-se de compreender o que ocorre nestas unidades socioespaciais, que significados encerram, qual o seu carácter, que identidades form(ul)am, que comportamentos e expectativas (pre-)supõem, e como estimulam e são estimulados pela (i)mobilidade nas suas várias expressões.