Resumo

Baseado num conjunto de pressupostos históricos, lugares comuns sobre o carácter dos portugueses e apriorismos sobre o seu modo de ser, o luso-tropicalismo moldou-se à história de Portugal e foi indispensável para a sobrevivência da «comunidade lusíada» nas últimas décadas do regime autoritário. Este modo particular de reinterpretar a história da colonização portuguesa ganhou consistência na década de 1960, quando uma série de rituais e práticas prosaicas contribuiu para promover a ideia de que Portugal era um país multirracial, geograficamente diverso, e uma unidade politicamente homogénea. O objectivo desta investigação é descrever e analisar um conjunto de acontecimentos comuns que generalizaram o luso-tropicalismo na vida diária. Vou procurar demonstrar como uma série de acontecimentos da cultura de massas – desde ícones do futebol, como Eusébio, passando por celebridades da música popular portuguesa, como João Maria Tudella e Eduardo Nascimento, entre outros, até aos concursos de beleza realizados na década de 1970 – dialogaram com os temas associados ao luso-tropicalismo, contribuindo em muitos casos para naturalizar as suas representações. Além do objectivo puramente historiográfico, que passa por recensear as formas que banalizaram o luso-tropicalismo fora do campo institucional, este trabalho pretende igualmente assinalar a contingência das representações luso-tropicalistas, que acabaram por soçobrar pouco tempo após a queda do regime autoritário.