A análise das transformações sociais em Luanda coloca em evidência a manutenção e reforço das redes e grupos sociais baseados na pertença familiar, redes estas cuja construção e forma de funcionamento emana da matriz tradicional. Simultaneamente, geram-se e recriam-se em meio urbano novas solidariedades que conduzem a novas formas de estruturação social. Assim sendo, os estatutos sociais são construídos com base em pressupostos herdados e em novas solidariedades, concorrendo assim para uma estruturação social significativamente híbrida e “mestiça”. Existem contudo aspectos relativos à sociedade urbana e às fontes da estruturação social que convém destacar. Por um lado, a intensidade e o poder das solidariedades e das reciprocidades impulsionam o surgimento de grupos sociais específicos onde se constroem os estatutos sociais e onde eles adquirem significado. Estes grupos e a sua disseminação em meio urbano concorrem para um tipo de estruturação que faz surgir segmentos organizados verticalmente no tecido social, não se evidenciando assim classes abrangentes e organizadas horizontalmente. Por outro, reforça-se o sentido e o significado da urbanidade – a integração, adopção e prática do estilo de vida urbano e normalmente associado à modernidade – que contribui para a diferenciação social de camadas tendencialmente transversais da sociedade. A urbanidade, revela-se em aspectos como a religião, a escolarização, a família ou as actividades económicas e informa as racionalidades e as práticas urbanas. Apesar das transformações sociais historicamente passíveis de delimitação que ocorreram na sociedade luandense, as últimas décadas revelaram existir uma aceleração do processo e a sua análise – embora ainda incompleta e dificultada pela hibridez e pela rapidez da mudança – revela existirem elementos que indiciam as suas tendências.

Table of Contents

1. Introdução
2. Grupos solidários: família e redes de reciprocidades
3. Urbanidade
4. Conclusões
5. Referências

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