Fronteiras reinventadas, por Cátia Miriam Costa

 

Oje – o jornal económico

 

Fronteiras reinventadas

A ascensão e queda de impérios, a reivindicação nacional e outros movimentos políticos de alguma complexidade foram responsáveis por essa mutabilidade da linha divisória entre países. Nas últimas décadas, a Europa foi palco de inúmeros fenómenos que resultaram no surgimento de novas entidades políticas. Vieram ao cimo identidades que até então não tinham possibilidade interna de se revelar nem expressão internacional reconhecida. Os modos de transição têm variado entre os mais negociados e políticos e os que foram consequência de guerra aberta. Assim, os movimentos secessionistas na Europa não são novidade. Também as influências externas neste tipo de conflito têm sido uma constante. Portanto, em última análise, tem existido uma profunda renovação fronteiriça, com a reinvenção de marcos separadores de identidades políticas. O recente caso da Ucrânia é um exemplo deste tipo de situação, em que diferentes comunidades, inseridas num mesmo espaço político, discutem legitimidades e pertenças.

Do mesmo modo que se pode comparar a crise na Ucrânia a outros conflitos existentes na Europa recentemente, é também possível procurar os seus elementos diferenciadores. A Ucrânia apresenta características próprias que fazem com que o seu território constitua uma espécie de fronteira entre diferentes tendências, uma advinda da Europa Central e outra da Europa mais a Oriente, hoje personalizadas pela União Europeia/Alemanha e pela Federação da Rússia, que constituem relações históricas do país. A separação política da antiga União Soviética tem apenas 23 anos e as suas relações económicas em alguns setores permaneceram muito próximas da Federação da Rússia. Outro aspeto que torna a Ucrânia num caso especial é o facto de ter o maior gasoduto do mundo e através deste transportar quase metade do gás que a Europa consome.

A questão energética associada a uma situação geopolítica delicada faz com que o grau de incerteza seja maior, tal como o risco associado a qualquer solução não negociada. O conflito civil já existente na fronteira leste não ficou resolvido com as eleições e uma solução musculada que não seja sensível a todas as vertentes em jogo pode lançar parte do território ucraniano num longo conflito com características de guerra civil. Se a reinvenção de fronteiras tem sido um processo histórico constante, a verdade é que nunca aconteceu de modo totalmente pacífico.

Apenas os importantes tratados internacionais têm contido esta tendência de ajuste fronteiriço. Aos portugueses, tudo isto parece estranho, dado o país ter as fronteiras estabilizadas quase desde a sua fundação, com raras ressalvas, e ter mesmo sido alvo de poucas incursões invasoras. Mas isso só o confirma como exceção. No entanto, no xadrez internacional, é impossível ser completamente alheio a uma questão que afetará certamente a segurança do continente europeu como um todo.

 

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