Espaço geográfico e unidade nacional

Maio 28th, 2014

por Luca Bussotti

 

A nossa academia tem muitos problemas. Um deles é a enorme dificuldade em fazer com que o estudante consiga chegar até o último passo do seu curso de Mestrado. Nas privadas como nas públicas o hábito é concluir a parte lectiva, depois de pagar muito dinheiro, e parar no momento de escrever a dissertação.

Afonso Silva Dambile fugiu a este destino. Concluído o curso no ISMA e a licenciatura em Filosofia na USTM, terminou também o Mestrado em Estudos Africanos no INSCIG. Até aqui nada de especial. Claro, para alguém com uma certa idade e com filhos adultos, isso representa um sucesso. Mas pode considerar-se como algo normal.

Menos normal é o facto de ele ter perseguido e conseguido a meta que sempre ambicionou: tornar-se autor. Com a ajuda do Centro Italiano para o Estudo da Cultura Africana e Mediterrânica (CISCAM), que tenho a honra de dirigir, Afonso Dambile publicou a sua primeira obra, edita pela IBIS, Pavia-Como, e com os cuidados científicos do CISCAM.

O título do livro é Espaço geográfico, sentido de pertença e unidade nacional em Moçambique. Aproveitando esta oportunidade, gostaria de levar a cabo algumas reflexões sobre este tema.

As inquietações que, consoante um questionamento de matriz filosófica, o autor coloca dizem respeito a um tema-chave: “Quem sou eu, moçambicano moderno?”, e ainda “Qual o espaço geográfico que caracteriza a vivência com os meus conterrâneos?”

São perguntas de grande actualidade. No momento político corrente tudo parece reduzir-se a questões de táctica. Quem ocupará este ou aquele cargo , que medida pontual este ou aquele ministro irá adoptar, quem é o culpado deste ou daquele falhanço, e por aí fora. Ninguém, na política moçambicana, coloca com força o tema de qual identidade em qual espaço geográfico, talvez por medo de descobrir que as certezas de nacionalismos demasiado superficiais e demasiado ostentados poderiam desmoronar perante as diferenças internas. Afonso Dambile lança esse desafio. Num país atravessado tradicionalmente pelo plurilinguismo, multireligiosidade e multiculturalismo, quais poderão ser os elementos que nos aproximam?

Ultimamente as armas voltaram a falar. Mais uma vez, acusações mútuas entre as partes em causa ganharam o centro do palco. A questão tem de ser posta de outra forma: será que somos tão diferentes que a única forma de diálogo é a confrontação de tipo militar? Será que não temos nenhuma raiz em comum para comunicarmos de maneira pacífica?

Olhando bem, essas confrontações representam o espelho daquilo que costuma-se passar diariamente na nossa sociedade. Apesar da ajuda internacional dos doadores, do PIB que continua a crescer de forma espantosa, dos investimentos nos nossos recursos naturais, os pobres aumentam e a elite privilegiada restringe-se e acumula volumes crescentes de riqueza. A violência caracteriza as nossas existências. E da pior das espécies. Uma violência que encontra nas confrontações militares no centro do país o seu epifenómeno, mas que desenrola-se de forma silenciosa, súbita, inexorável nas periferias das nossas cidades, nas diferenças territoriais entre partes diversas de Moçambique, entre cidade e campo, no papel ainda submetido da mulher em comparação com o homem, na exploração e marginalização das crianças e dos anciãos, nos acidentes de viação que matam cada dia dezenas de pessoas, com a indiferença de quase todos. Em suma, uma sociedade violenta enquanto desigual, que encontra na resistência político-militar de uma parte do país a sua expressão mais imediata e directa.

O livro de Dambile coloca estes e outros relevantes pontos diante das consciências dos Moçambicanos. Pontos que, se calhar, poderiam constituir pelo menos uma parte da futura agenda programática dos vários partidos que irão competir nas próximas eleições gerais. Tentar perceber os motivos da união dum povo (ou de vários povos que ocupam um mesmo espaço geográfico) seria talvez um exercício interessante e maduro para fazer com que o nosso sentido de pertença se afaste sempre mais das práticas belicistas, aproximando-se de comportamentos de respeito mútuo derivantes de pesquisas e estudos cientificamente sólidos. Uma esperança, esta, que espero não se torne utopia, mas realidade.

*Docente universitário e investigador auxiliar no Centro de Estudos Internacionais do ISCTE-IUL

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